UM ATO CRIMINOSO

Nesta terça-feira, 35 pessoas foram presas, incluindo o secretário-executivo do Ministério do Turismo, Frederico Costa, na Operação Voucher, que investiga desvios de dinheiro no Ministério. Segundo o delegado, o secretário-executivo da pasta, Frederico Costa, o ex-secretário executivo, Mário Moysés e o secretário nacional de Programas e Desenvolvimento do Turismo, Colbert Martins da Silva Filho, foram presos preventivamente, ou seja, para evitar a eliminação de provas e com prazo maior de detenção.
A Polícia Federal investiga desvios relacionados a convênios de capacitação profissional no Amapá. Na ação, com cerca de 200 policiais, divididos em São Paulo, Brasília e Macapá, a PF cumpriu 19 mandados de prisão preventiva e 19 mandados de prisão temporária, além de sete mandados de busca e apreensão. Além dos 35 presos, estão envolvidos funcionários do Ibrasi (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Infraestrutura Sustentável), foco da fraude.
Mais um escândalo se acumula no curto currículo de Dilma Rousseff como presidenta. Desde junho, o governo federal enfrenta uma série de escândalos em vários ministérios que já levaram à queda dos ministros Antonio Palocci (Casa Civil), Alfredo Nascimento (Transportes) e Nelson Jobim (Defesa).
Denúncias de corrupção e irregularidades em licitações atingiram os ministérios da Agricultura e Transportes. Este último teve mais de 20 funcionários afastados.
As pastas de Cidades, Defesa e Minas e Energia também respondem por irregularidades. Em resumo, seis ministérios já foram alvos de denúncias de irregularidades nos últimos dois meses e três ministros já deixaram o cargo, o que vem acirrando a crise que assola os primeiros oito meses de governo de Dilma. As denúncias sucedem-se muito rápido. Mal começamos a entender um caso de corrupção e já aparece outro. A nova presidenta ainda não teve tempo de governar, porque vai dormir com um caso e acorda com outro. Hoje é o Ministério do Turismo. Ontem, foi o da Agricultura, anteontem o dos Transportes. Trás-anteontem, o patrimônio do ministro da Casa Civil. O que será amanhã? São vários casos ou é tudo uma coisa só? E tudo com dinheiro do público.
As denúncias são cada vez mais numerosas, mas é ilusão acreditar que a corrupção foi inventada neste século por este ou aquele partido. Os jornais desta sexta-feira, dia 12, destacam – com textos mais ou menos emocionados – a descoberta de mensagens deixadas por operários que trabalharam na construção do edifício do Congresso Nacional, em Brasília, em 1959. São frases simples, chegam a ser piegas, textos produzidos por homens simples que se sentiam provavelmente muito orgulhosos por estarem ajudando a levantar a nova capital do país. Uma mensagem do passado a cobrar “dignidade e honra” e manifestar esperança no futuro do Brasil.
 As mensagens esperançosas de operários que construíram Brasília precisam ser lidas com menos pieguice e mais objetividade. Se a sociedade realmente quer o combate à corrupção, precisa ir fundo às suas raízes e levantar para valer a bandeira da reforma política. Nenhum governo será capaz de quebrar o vício da corrupção sem o respaldo da sociedade. Dilma Rousseff não é a primeira a viver em uma série de escândalos e nem será a última. Também não será a responsável por “varrer a corrupção do Brasil”, como prometia Jânio Quadros em seu jingle do campanha, em 1960. Só a sociedade, politizada e unida, pode promover uma verdadeira mudança, capaz de por fim aos desvios – de dinheiro e de conduta – no Congresso Nacional.
Juan Arias, correspondente do jornal espanhol “El País” no Brasil, escreveu, no dia 7, um artigo indagando onde estão os indignados do Brasil. Por que não ocupam as praças para protestar contra a corrupção e os desmandos? Não saberiam os brasileiros reagir à hipocrisia e à falta de ética dos políticos? Será mesmo este um país cujo povo tem uma índole de tal sorte pacífica que se contentaria com tão pouco?
A mesma sociedade que foi capaz de se mobilizar de forma tão corajosa e decidida no Movimento pelas Diretas Já e para o impeachment de Fernando Collor precisa se mobilizar contra a corrupção que grassa em todos os níveis do governo. A corrupção não é apenas uma questão de ética e moral. Não é somente uma transgressão às leis. A corrupção é um ato criminoso responsável por milhares de mortes que ocorrem neste país há anos. São as mortes nas estradas, evitáveis se tivessem sido construídas com qualidade e zelo. São as mortes por falta de assistência à saúde, porque o dinheiro de investimento e custeio é escandalosamente desviado. São mortes infantis por desnutrição devido à péssima qualidade da merenda escolar.
A corrupção é a grande responsável pelo atraso do nosso desenvolvimento porque é exatamente no que um país mais precisa para crescer – infra-estrutura, educação, saúde e segurança – que mais se desvia dinheiro. Não dá mais para encarar a corrupção como “inevitável” ou “coisa de político”. A corrupção, efetivamente, está corroendo nossas vidas e nossas possibilidades de nação desenvolvida. É hora de ser combatida como fizemos com a ditadura e a inflação. E os brasileiros já mostraram que sabem como fazer.
 Isabela Scaldaferri


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